Ensaio sobre a Cegueira (livro e filme) e Documentário Janela Da Alma

Como todos já devem saber, o grande escritor José Saramago faleceu hoje, aos 87 anos, deixando seu legado literário para trás. Por esse motivo, lembrei-me de um artigo que escrevi há um ano sobre seu livro, Ensaio sobre a Cegueira, relacionado ao documentário João Jardim e Walter Carvalho, Janela da Alma, por acaso um documentário que eu realmente recomendo.

Segue a baixo o artigo e espero que gostem.

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Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem. (Saramago, p. 310).

José Saramago, autor de “O Ensaio sobre a Cegueira” e ganhador do prêmio Nobel de Literatura, não apresentava grandes esperanças em tornar um filme o seu livro, afirmava abertamente durante mais de dez anos que sucederam o livro que o “cinema destrói a imaginação”. No entanto não chegou a negar a possibilidade de Fernando Meireles embarcar na produção cinematográfica de seu livro.

O estilo que o livro é escrito, pode ser considerado cansativo, Saramago pediu que a grafia utilizada em seu trabalho fosse mantido, o estilo sem parágrafos, sem falas demarcadas, sem capítulos, simplesmente reto, contínuo, pode deixar o leitor um pouco confuso no começo da obra, se perdendo entre linhas e acontecimentos, como quem está falando e com quem aconteceu tal fato. Ao decorrer do livro repara-se que esse é o modo mais intenso de manter a concentração do indivíduo focado somente em sua obra, entrando em um mundo trágico e bárbaro, nojento, revoltante. Envolve-se com os personagens, principalmente com a única personagem que não perde a sua visão, a mulher do médico oftalmologista, a única que pode guiar um grupo de cegos e que mesmo vendo, sente-se como se fosse a única realmente cega no meio daquela confusão.

A crítica intensa que o autor quis demonstrar é o principal motivo que deixa os leitores revoltados, é a idéia da cegueira real, a cegueira branca, mesmo tendo a visão, não se enxerga além do que queira ver, perdido em uma sociedade que cria tantas coisas, mas não compreende a metade de suas criações. Um mundo veloz, que não se pode parar para observar os fatos simples, um excesso de informações, que não permite um aproveitamento total do que é visto, não somos capazes de prender inteiramente nossa atenção.

No documentário “Janela da Alma”, Saramago diz que nunca foi tão bem posta a teoria da Caverna de Platão, vivemos em um mundo Audiovisual, que impedem nossa criatividade e a nossa capacidade de observar. O cineasta Wim Wenders também sugere em seu ponto de vista para o documentário que o cinema hoje em dia não permite a imaginação, as imagens são postas em nossas frentes, já completamente formadas.

No entanto no filme Ensaio Sobre a Cegueira, já é visto que a intenção principal não era formar um filme qualquer, e sim realmente captar a crítica que é observada no livro para o filme. Fernando Meirelles conseguiu captar tais traços, sendo elogiado pelo próprio autor da obra. Com a ajuda de uma fotografia fantástica de César Charlone que conseguiu de modo incrível transportar para o mundo do cinema a cegueira branca, leitosa que imaginávamos dentro do livro.

Além dos personagens que imaginávamos de suas próprias formas, agora criando uma identidade, algo que talvez não seja o que era desejado, afinal a intenção do livro é de supor que cada leitor se encaixe com o papel de um personagem. Meirelles pode “brincar” com as imagens dentro do livro, como o fato de um chinês ser o primeiro cego, junto com a sua mulher.

A interpretação e, conseqüentemente, a comparação destes dois projetos, muda de acordo com a ordem que se é trabalhada. Sempre é uma boa dica primeiro observar a obra original para depois se aprofundar em sua adaptação, pois assim pode-se “navegar” com as imaginações, com as interpretações e com o senso crítico de cada pessoa.

Em meios críticos o filme nunca será perfeito, primeiramente porque tem a ordem literária modificada para que dê harmonia para a obra cinematográfica, como houve a morte do ladrão, antes de mais de 200 pessoas chegarem ao hospício. Como o cego malvado da ala 3 se apresentou e como ele agiu. Vários fatos foram dados em outra ordem para que o filme se tornasse mais dinâmico. Além disso, pode-se sentir uma esperança, como se essa cegueira, que transforma o homem em um ser irracional, animalesco, um dia fosse mudar.

Na obra original a ânsia e a aflição são maiores, o tempo passa mais devagar e os fatos nos causam mais nojo, agonia. A cegueira branca, essa cegueira social é mantida durante toda a obra para que não esquecemos da tragédia que a vida humana se tornou. O livro liga mais o cérebro para a imaginação e a crítica, criando teorias e se envolvendo em um espaço único, em um mundo paralelo. O filme é um meio frio, não aprimora tão intensamente esta criatividade e por conseguinte, esta visão crítica e filosófica.

Omelete sobre o filme Ensaio sobre a Cegueira

Cine Argumento sobre o filme

Cinéfilos sobre o filme

Resenha do livro

Cinema em Cena sobre o filme

Dados e sinopse do documentário

Saramago se emocionando ao assistir a adaptação de seu livro

Trecho de Saramago no documentário Janela da Alma

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~ por Juliana em junho 19, 2010.

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