A genial mente de Milan Kundera

Livro

Eu demorei mais do que esperava para escrever sobre esse livro, principalmente porque é um livro que eu tive uma expectativa absurda quando ouvi falar e a minha opinião aumentou ainda mais quando eu resolvi ler. Graças a isso o medo de falar besteira quando eu escrevesse sobre ele também foi grande, mas tomei coragem e cá estou eu.

A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, nos leva para 1968, em Praga e em Zurique, no meio de um ambiente de uma Tchecoslováquia invadida pelos russos e toda a tensão política que se estendeu por entre as décadas que Kundera leva seus personagens. São quatro personagens e cada um com uma história diferente. Em minha mente eu comecei a pensar que esses quatro personagens formam uma única personalidade que pode ter um homem, ou uma mulher.

Enquanto Tomás é um médico jovem e atraente, sem dizer muito paquerador e mulherengo, Tereza, a mulher por quem ele se apaixona, é ainda mais jovem, frágil e feminina, que imagina um amor único, mas que começa a aceitar as traições de seu Tomás. O mais atraente sobre Teresa é o fato dela ter nascido em um ambiente que não existia qualquer tipo de amor, uma mãe nojenta totalmente sem classe e sem educação, mas isso não impede que Teresa cresça com uma vontade ao contrário do que sua mãe lhe educou, provavelmente por essa educação grotesca é que Teresa tem essa paixão pela vida de uma maneira mais pura e inocente.

Tomás se perde nessa inocência que ele próprio não consegue entender, tenta, sem chances, acabar com o sofrimento de sua mulher parando de trair, mas seus instintos falam mais alto e sua vontade pela vida lhe faz entrar em romances de só uma noite, o que deixa Teresa a cada momento mais perturbada, mesmo que ela não queria assumir isso a ele, por amá-lo tanto, o aceita do jeito que é, mesmo que tudo isso lhe dê farpas no coração.

Entre esses dois personagens que vivem um romance diferente do que costumo ler em livros, existem outros dois ainda mais complexos. Eu não consigo encontrar realmente um personagem que possa dizer como favorito, mas tenho um certo carinho especial por Sabina que, para mim, tem uma das personalidades mais complexas e apaixonantes.

Sabina é basicamente o uma versão feminina de Tomás e durante muito tempo foi a sua mais duradoura amante e amiga. Mas os momentos se passam e Sabia não é do tipo de mulher que se mantém em um mesmo lugar por muito tempo, sua educação também lhe trouxe opostos, enquanto seu pai era um ditador e lhe obrigava a seguir caminhos que, para ela, eram totalmente errados, Sabina se rebela e segue sua vida sem destino, uma artista sedutora que atrai todos os tipos de homens e depois os descarta.

Não foi diferente quando Franz se apaixona por ela. Franz é um dos personagens mais fracos, porém um dos mais fáceis de se entender e identificar, sua vida é chata e monótona, casado e com uma filha, mas tanto sua mulher quanto sua filha são seres que ele não compreende e tenta fugir a cada momento. Um professor que cansou de sua vida correta e ajeitada e leva um choque quando conhece uma pessoa totalmente oposta a tudo que ele vê, no caso Sabina, que o leva para um mundo que ele se apaixona a cada momento, ele está tão envolvido com esse novo ambiente que chega a considerar Sabina como sua deusa, sua guia para todos os momentos, até mesmo quando ela o abandona por perceber que pode chegar a amá-lo, coisa que ela foge a todo momento, considerando sua vida uma contínua traição e aceitando esse seu destino que ela não considera nem um pouco cruel.

Entre esses personagens que constroem uma vida complexa, existe a complicada definição filosófica que Kundera tenta estabelecer sobre a leveza e o peso. A leveza é considerada uma vida que se segue sob o teto da liberdade descompromissada, um não-engajamento, não-comprometimento com situações quaisquer, no caso o fato da guerra que está se envolvendo pela Tchecoslováquia, onde Tomas não pretende se envolver, tanto quanto ao modo que ele segue seu relacionamento com Teresa, até o momento que ele se compromete a ela, descobrindo o valor do peso, além de ver sua mulher se envolver nas batalhas contra a invasão russa, um estilo de peso, o comprometimento, o engajamento que até então ele negava.

O livro também ilustra a visão de eterno retorno usado por Nietzsche, por acaso uma das primeiras coisas que Kundera fala em seu livro, sobre como as situações existenciais podem se repetir indefinidamente no tempo, ou seja, você faz as mesmas coisas para sempre.

Se esse foi o romance mais inacreditáveis e fantásticos que eu já li em minha vida? Tenho que assumir que sim, dificilmente encontrarei um livro que me prenda tanto e que me deixe tão agoniada graças a esses relacionamentos tão complexos e reais, mostrando que o amor nunca será algo perfeito e sim uma leveza pesada que nos dá vontade de fugir quando parece estar certo e quando se é perdido, lhe dá vontade de correr atrás, entre guerras, entre idealizações, entre tudo que alguém pode criar para lhe impedir, mesmo que no final não alcance de fato esse amor imperfeito.

Se tem um livro que eu definitivamente recomendo, acima de qualquer outro que já li até então, é este. Deixe sua mente ficar um pouco mais perturbada com os pensamentos de Kundera.

Sobre o Eterno Retorno de Nietzche:

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O eterno retorno pe uma ideia misteriosa e, com ela, Nietzche pôs muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir como foi vivido e que tal repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato?

O mito do eterno retorno afirma, por negação, que a vida desaparece de uma vez por todas, que não volta mais, é semelhante a sombra, não tem peso, está morta por antecipação, e por mais atroz, mais bela, mais esplêndida que seja, essa atrocidade, essa beleza, esse esplendor não têm menor sentido. Essa vida é tão importante quanto uma guerra entre dois reinos africanos do século XIV, que não alterou em nada a face do mundo, embora trezentos mil negros tenham encontrado nela a morte depois de suplícios indescritíveis.

Será que essa guerra entre dois reinos africanos do século XIV se modifica pelo fato de se repetir um número incalculável de vezes no eterno retorno?

Sim: ela se tornará um bloco que se forma e perdura, e sua brutalidade não terá remissão.

Se a Revolução Francesa devesse se repetir eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Robespierre. Mas como ela trata de algo que não voltará, os anos sangrentos não passam de palavras, teorias, discussões, são mais leves que uma pluma, já não provocam medo. Existe uma diferença infinita entre um Robespierre que apareceu uma só vez na história e um Robespierre que voltaria eternamente para cortar a cabeça dos franceses.

Digamos, portanto, que a ideia de eterno retorno designa uma perspectiva em que as coisas não parecem ser como nós as conhecemos: elas aparecem para nós sem a circunstância atenuante de sua fugacidade. Com efeito, essa circunstância atenuante nos impede de pronunciar qualquer veredicto. Como condenar o que é efêmero? As nuvens alaranjadas do crepúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia; até mesmo a guilhotina.

Não faz muito tempo, surpreendi-me experimentando uma sensação incrível: folheando um livro sobre Hitler, fiquei emocionado com algumas fotos dele; lembravam-me o tempo de minha infância; eu a vivi durante a guerra; duversos membros de minha família foram mortos nos campos de concentração nazistas; mas o que era a sua morte diante dessa fotografia de Hitler que me lembrava um tempo passado de minha vida, um tempo que não voltaria mais?

Essa reconciliação com Hitler trai a profunda perseversão moral inerente a um mundo fundado essencialmente sobre a inexistência do retorno, pois esse mundo tudo é perdoado por antecipação e tudo e, portanto, cinicamente permitido.

~ por Juliana em maio 11, 2010.

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